Fotoroubêixan: wacky doodler
Escola Estadual Professor Nicolau Hampf
Castro, 14/10/20xx.
Débora nº. 12 8ªA
Produção de Texto em Múltiplas Linguagens: 1. Descriçãode objeto
Adalgásia
Eu devia ter uns 14 anos quando meu tio Yaroslau comprou o primeiro automóvel da família. Eu morava com o meu tio Yaroslau e era da família porque minha tia contribuiu com uns cruzeiros. Até eu dei o troco de uma borracha.
Ele comprou, então, a Adalgásia. Uma fusquinha meia meia de quinta mão.
Meu tio Yaroslau foi quem a batizou: "E se chamará Adalgisa..." Na hora a gente interrompeu, pois onde já se viu? Fuque é hôme e o nosso não seria marica. "Fuque é mulher! De estranhar vai ser esse fuque rosa se chamar Benedito. É Adalgisa e não se discute".
Não, não foi erro. Adalgisa era o nome de batismo. Ali, no duro da bolacha, ela era chamada de Adalgásia. É que a gente era muito ingnorante e quando ía falar A-dal-gi-sa saía automaticamente Adalgásia. Até o meu tio Yaroslau falou só 3 vezes Adalgisa: quando batizou e quando conversou com um frentista sobre a importância inestimável da bomba injetora.
A Adalgásia era assim: rosa choque descascando, o fosco do que um dia foi metálico e, juro por Deus, uma buzina que fazia "au, au" em vez de "fom, fom". Foram dois dias inteiros procurando algum cachorro nas engrenagens até concluir que o barulho vinha realmente do veículo.
Como Adalgásia era um carro e não uma democracia, meu tio Yaroslau determinou o lugar em que nos sentávamos. Meu tio Yaroslau (claro!) no volante; minha tia de co-pilota, eu ficava atrás dela e o Zé Maria, meu primo, à minha esquerda. A! E tinha o Preto, nosso cachorro, que ía onde cabesse, mas atrás, ca gente.
Em cada lugar dos bancos da Adalgásia tinha um número de rasgos e buracos maior que 11 e menor que 22. Nunca passava de 22. Os bancos, aliás, eram pretos, menos o lugar do Zé Maria, que era cinza. Minha tia tricotou um tapete verde, e depois bordou um pavão e dois jacus bem coloridos pra pôr nos banco. Por incrível que pareça, na minha memória, aqueles tapetes eram as coisas mais bonitas que eu tinha visto na vida.
Porém, antes de botar as nossas fuças na Adalgásia, meu tio Yaroslau fez a família inteira ouvir ele declamar o Manual do Proprietário. Isso mesmo: declamar. Meu tio Yaroslau fez só 2 anos de estudo em Sverolowski, terra natal dele na Rússia, onde ele aprendia russo. Quando ele veio pra cá, na Segunda Guerra, ele aprendeu português tanto quanto Camões.
Quando ia ao posto ficava discutindo a calibragem correta dos pneus da Adalgásia e como já foi dito... "Do que adianta ter um fuque fiel como a Adalgásia sem ter noção do bom funcionamento de uma bomba injetora?".
Um monte de vezes me deu vontade de gritar que tinha um monte de pessoas dirigindo qualquer joça sem nem sequer saber que existia um trambolho chamado bomba injetora.
Mas enfim, a Adalgásia começou a nos unir socialmente, filosoficamente, amorosamente.
Ele comprou, então, a Adalgásia. Uma fusquinha meia meia de quinta mão.
Meu tio Yaroslau foi quem a batizou: "E se chamará Adalgisa..." Na hora a gente interrompeu, pois onde já se viu? Fuque é hôme e o nosso não seria marica. "Fuque é mulher! De estranhar vai ser esse fuque rosa se chamar Benedito. É Adalgisa e não se discute".
Não, não foi erro. Adalgisa era o nome de batismo. Ali, no duro da bolacha, ela era chamada de Adalgásia. É que a gente era muito ingnorante e quando ía falar A-dal-gi-sa saía automaticamente Adalgásia. Até o meu tio Yaroslau falou só 3 vezes Adalgisa: quando batizou e quando conversou com um frentista sobre a importância inestimável da bomba injetora.
A Adalgásia era assim: rosa choque descascando, o fosco do que um dia foi metálico e, juro por Deus, uma buzina que fazia "au, au" em vez de "fom, fom". Foram dois dias inteiros procurando algum cachorro nas engrenagens até concluir que o barulho vinha realmente do veículo.
Como Adalgásia era um carro e não uma democracia, meu tio Yaroslau determinou o lugar em que nos sentávamos. Meu tio Yaroslau (claro!) no volante; minha tia de co-pilota, eu ficava atrás dela e o Zé Maria, meu primo, à minha esquerda. A! E tinha o Preto, nosso cachorro, que ía onde cabesse, mas atrás, ca gente.
Em cada lugar dos bancos da Adalgásia tinha um número de rasgos e buracos maior que 11 e menor que 22. Nunca passava de 22. Os bancos, aliás, eram pretos, menos o lugar do Zé Maria, que era cinza. Minha tia tricotou um tapete verde, e depois bordou um pavão e dois jacus bem coloridos pra pôr nos banco. Por incrível que pareça, na minha memória, aqueles tapetes eram as coisas mais bonitas que eu tinha visto na vida.
Porém, antes de botar as nossas fuças na Adalgásia, meu tio Yaroslau fez a família inteira ouvir ele declamar o Manual do Proprietário. Isso mesmo: declamar. Meu tio Yaroslau fez só 2 anos de estudo em Sverolowski, terra natal dele na Rússia, onde ele aprendia russo. Quando ele veio pra cá, na Segunda Guerra, ele aprendeu português tanto quanto Camões.
Quando ia ao posto ficava discutindo a calibragem correta dos pneus da Adalgásia e como já foi dito... "Do que adianta ter um fuque fiel como a Adalgásia sem ter noção do bom funcionamento de uma bomba injetora?".
Um monte de vezes me deu vontade de gritar que tinha um monte de pessoas dirigindo qualquer joça sem nem sequer saber que existia um trambolho chamado bomba injetora.
Mas enfim, a Adalgásia começou a nos unir socialmente, filosoficamente, amorosamente.



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